Opiniões de um irlandês sobre o Brasil - a última parte

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Esse é o último post da série "Opiniões de um irlandês sobre o Brasil" e eu queria muito deixar registrado o quão feliz fiquei com a participação do R. aqui no blog. Muita gente veio elogiar por mensagens através do facebook e pelos comentários aqui e eu mostrei tudo pra ele, que ficou muito contente também. R., muito obrigada!!! :)

O assunto que deixei pro final é das barreiras linguísticas. Eu não queria deixar de dar o meu pitaco, pois é um assunto que muito me interessa e intriga. Vamos lá!

Language barrier

I don’t speak Portuguese.  While I do have some comprehension from my time with Bárbara, my vocabulary is extremely limited.  While I know the most important words “gatinha, lindinha, bonita” these aren’t much help when you need to ask the front desk of a hotel how to make a call from your room.  I was surprised that the staff at the hotel I had chosen had little to no English – that was the case with at least the night time staff.  I’ve been spoiled by travelling in Europe where staff are multilingual almost everywhere.

I know that I was a guest in a different country and the onus is on me to adapt to the local language, but a hotel off one of the most important avenues in the business capital of the country is one place where I would expect English speaking staff.  Bárbara was not surprised.

I do wonder how all the American tourists are managing in Brazil during the World Cup.  I guess it might not be so bad some of them speak Spanish so Portunhol might be manageable.  Also technology helps – at the time I didn’t realise that there was a computer with Internet access in the hotel – I could have used Google Translate to help.  Of course I would have had to request access to the machine, but at least that could be done with hand gestures!

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A barreira linguística

Eu não falo português. Ainda que eu entenda um pouco do tempo que estou com a Bárbara, meu vocabulário é extremamente limitado. Mesmo que eu sabia as palavras mais importantes "gatinha, lindinha, bonita" elas não serão de grande ajuda quando é necessário perguntar a um funcionário no hotel como fazer uma ligação do seu quarto. Eu fiquei surpreso que o staff do hotel que escolhi tinha quase a nenhum inglês - isso foi o caso com o staff da noite pelo menos. Eu fui mimado por viajar pela Europa onde o staff é multilíngue em quase todo lugar.

Eu sei que era um convidado num pais diferente e que a responsabilidade é minha de me adaptar a língua local, mas um hotel perto de uma das avenidas mais importantes da capital econômica do país é um lugar onde eu esperaria que tivesse funcionários que falem inglês. A Bárbara não ficou surpresa.

Eu fico pensando em como os turistas americanos estão se virando na Copa do Mundo no Brasil. Eu acho que pode não ser tão ruim, pois alguns deles falam espanhol então portunhol daria um jeito. E tecnologia também ajuda - na hora não percebi que tinha um computador com acesso a internet no hotel - eu poderia ter usado Google Tradutor pra ajudar. Claro que eu teria que pedir acesso à máquina, mas pelo menos isso poderia ter sido feito com gestos!

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Primeiro, eu queria exibir o R. um pouquinho e dizer que o vocabulário dele tá looonge de extremamente limitado - quando eu falo português com ele, R. consegue entender muito do que digo. No Brasil, por causa da constante exposição, tava entendendo pequenos trechos de conversas minhas com as pessoas! Sua pronúncia é excelente (porque a professora pega no pé, né? HAHAHA) e ele consegue fazer com precisão sons de dificuldade alta pra falantes de inglês como o LH, NH e o famoso ÃO.

Dito isso, queria dizer que não concordo muito com ele quando ele diz que a responsabilidade de se adaptar a língua local é dele, o visitante. Todo mundo sabe que o inglês há muito tempo é língua internacional, é língua do mundo. Aqui, vou tomar a liberdade e postar um trecho que escrevi pra minha monografia de conclusão da pós-graduação em Ensino de Língua Inglesa. Eu sei, é chato, mas é pra provar que não tô inventando nada, já foi tudo dito, pesquisado e comprovado:

McKay (2009, p.11) menciona que uma das primeiras definições surgidas em relação ao termo língua internacional é: “(...) língua internacional é aquela usada por pessoas de diferentes nações para comunicarem-se umas com as outras” (tradução nossa) .  Ainda de acordo com McKay (id., p. 5), a Língua Inglesa é uma língua de comunicação mais ampla, tanto em um sentido global como local, ou seja, "Inglês é a língua internacional por excelência". 

Em suma, o uso generalizado de Inglês em uma variedade de formas e arenas torna imperativo para qualquer país que quer ser parte da comunidade mundial ter acesso à linguagem, a fim de desenvolver-se economicamente. Afinal de contas, língua é poder.

Rajagopalan (2005) discute algo que o preocupa, que é a invasão da língua inglesa na vida de todos os seis bilhões de seres humanos que habitam o planeta. Dentro dessa realidade lingüística, “(...) perto de 1,5 bilhão de pessoas no mundo já possui algum conhecimento da LI e/ou se encontra na situação de lidar com ela no seu dia-a-dia” (RAJAGOPALAN, 2005, p. 149). Assim, “o inglês está um pouco presente em todos os lugares do mundo” (LE BRETON, 2005, p. 16).

De acordo com Moita Lopes (2005), atualmente, mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo aprendem inglês, sendo que 375 milhões falam inglês como primeira língua e 750 milhões usam o inglês como segunda língua. Assim, é interessante notar que o número de pessoas que usam o inglês como segunda língua é muito maior do que o número de falantes nativos desse idioma.

Portanto, pode-se perceber que o uso do inglês é um dos meios mais rápidos de inclusão e ascensão social. “Há setores na sociedade em que o recurso do inglês se tornou uma necessidade, ou seja, quem se recusa a adquirir um conhecimento mínimo da língua inglesa corre o risco de perder o bonde da história” (RAJAGOPALAN, 2005, p. 149).

Ou seja, ao visitar um país como turista, é bacana saber falar um "oi", "tchau", "obrigado", mas de maneira geral, o inglês é que será a língua de comunicação nesse território. Fico puta quando vejo brasileiro bravinho dizendo coisas do tipo "se o gringo tá vindo pro meu país ele tem que falar minha língua" - não amigo, cê entendeu tudo errado. 

Por fim, queria dizer que não fiquei nem um pouco surpresa com o fato do staff do hotel que o R. ficou nos primeiros dias em SP não falar inglês. O nível de inglês do brasileiro é vergonhoso, muito ruim. E tem sim melhorado nos últimos anos, principalmente porque a classe média consegue pagar cursos caros em escolas como Cultura Inglesa, Red Balloon, Cel Lep, etc. O problema não é que o brasileiro não fala inglês, o problema é que fala mal. No ano passado uma instituição chamada Education First fez um estudo pra saber o nível de proficiência de inglês de vários países e o Brasil ficou em 38º lugar, entre os 60 países da lista, com mesma pontuação de países como o Egito ou o Irã.



Nesse link aqui dá pra ler o estudo e ver a lista completa. 

Claro que esse assunto ainda vai mais longe: o brasileiro não tem bom nível de inglês porque o inglês não é ensinado de forma satisfatória no ensino regular (e por isso é que tem tanta rede e escola de idiomas no Brasil e por isso também que sempre tive meu emprego garantido). E se vasculharmos esse assunto ainda mais, entraremos na questão da formação de professores no curso de Letras e sei que você não tá querendo ler sobre isso, né?

Enfim, eu queria agradecer ao R. pelos belos textos, pelo pessoal que leu, elogiou, comentou - obrigada! Adorei essa série aqui no blog!
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