Ir ao médico num país estrangeiro pode ser interessante

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Demorou quase um ano pra eu precisar ir ao médico aqui. Na verdade precisar eu não precisava - não era caso de vida ou morte, mas enfim, vamos aos detalhes: eu precisava de uma receita médica pra algum remédio que combatesse acne, já que misteriosamente minha pele ficou muito ruim de uns meses pra cá. Não sei se foi o calor, se foi o vento, se foi a chuva, se foi a água, mas o fato é que minha acne, essa maldita que me acompanha desde a adolescência, invadiu minha vida com tudo aqui na Irlanda.

Creminho e sabonetinho não resolve, eu queria um remédio mesmo, por isso fui numa dermatologista.

Só que na Irlanda é assim: se você quer ir num especialista (no caso, o dermatologista), você precisa primeiro passar no GP (clínico geral). É uma lógica um pouco sem sentido em alguns casos, porque se eu sei que meu problema é acne, não preciso ir num clínico geral pra me dizer isso, certo? Ainda mais quando você paga no mínimo, atenção, 50 euros na consulta.



Perguntei pra algumas pessoas se havia a possibilidade de me consultar direto com um dermatologista que não exigisse uma referência do GP e sim, alguns aceitam. Conversando com minha chefe ela me indicou uma GP que também era dermatologista e poderia me atender. Marquei a consulta (que seria 85 euros) e fui toda animada.

Chegando lá preenchi um formulário com os meus dados por ser paciente nova. Aí a médica me chamou pra "sala" dela. Sala entre aspas porque aquilo parecia qualquer coisa, menos uma sala médica. A começar pelo fato deu ter sido recebida por um cachorro - é, eu disse, cachorro. Ela virou pra mim e disse "I have a doggie, do you mind?" - Não, minha querida, eu não me importo se tem UM CACHORRO NO SEU CONSULTÓRIO MÉDICO. Dei um sorriso amarelo e ela mandou o cachorro sair.

A sala era bagunçada, tinha muito livro jogado, enfim, uma puta bagunça. Foi um choque, já que eu tô acostumada a ver sala de médico toda clara, clean, vazia, não-poluída. A dermatologista sentou a uma distância enorme de mim, atrás de uma mesa com um computador. Ela não chegou perto de mim em nenhum momento pra analisar a pele do meu rosto! Nessas alturas eu já tava era só rezando pra ela me dar a receita pra um bom remédio e eu sair logo de lá.

Quando mostrei a caixa de um creme pra acne que eu passava no Brasil (que ela não pediu, eu que quis mostrar), comentei que estava em português, ela disse que tudo bem, pois conhecia o remédio. Aí emendou: "Which part of Portugal are you from"?

PORTUGAL?

"I'm not from Portugal, I'm from Brazil."
"Ah, you look South American but because of mentioned Portuguese... I thought so."

Te contar, viu?

No final me deu uma receita pra um antibiótico (tomar por 3 meses e já quase terminei o primeiro) e cobrou "só" 65 pela consulta, ao invés dos 85 que ela havia dito ao telefone.

A minha segunda experiência em médicos aqui foi no Well Woman Centre. Há um negócio aqui chamado Cervical Check e através dele qualquer mulher acima de 25 anos pode fazer exame papanicolau de graça. Você liga lá, dá o seu número de pps e eles te passam um número de registro. Aí você pesquisa no site algum médico ou enfermeira mais próximo de você que atende pelo Cervical Check (tem uma lista e dá pra filtrar por endereço) e marca a consulta. Quando marquei a consulta nem o número pediram, mas pessoalmente na clínica sim, então tem que ter o número!

A enfermeira foi uma gracinha e assim como a dermatologista, também presumiu que eu fosse de outro lugar - quando eu disse que era brasileira ela respondeu: "How come? you sound so American...". Quando fui responder, explicando que provavelmente era porque eu assistia muitos seriados estado-unidenses ("I guess it's because I watch...") ela me interrompeu e exclamou: "See? Even the I guess thing, we don't use that here....". Risos, fiquei me achando o resto do dia.

O resultado do exame chega em casa pelo correio no prazo de um mês e fica a dica pra mulherada aqui em Dublin!
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