Uns dias no Uruguai - parte IV

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E estamos quase no fim da série "Uns dias no Uruguai" - nosso 4º dia foi mais curto (já que nosso vôo era no fim da tarde), mas mesmo assim, deu pra aproveitar bem.

Eu queria visitar um museu que era meio afastado do centro, ficaria bem longinho de ir então resolvemos trocar. A Jamile é uma ótima guia e deu a ideia de conhecermos o Museu dos Andes, que ela mesma ainda não conhecia. O museu fala da história de um avião uruguaio que caiu na Cordilheira dos Andes (parte chilena) nos anos 70 e seus sobreviventes. A entrada é cara, tipo uns 20 reais, mas vale cada centavo.

Eu já tinha ouvido falar dessa história, mas visitar o museu foi um negócio muito, muuuito fascinante.

Eram 45 pessoas no vôo, incluindo uma equipe de rúgbi, seus amigos, familiares e associados que caiu na Cordilheira - mais de um quarto dos passageiros morreram no acidente e vários morreram nos dias seguintes por causa de ferimentos e do constante frio. Dos 29 que estavam vivos alguns dias após o acidente, oito foram mortos por uma avalanche que varreu o seu abrigo. Os últimos 16 sobreviventes foram resgatados mais de dois meses após o acidente. DOIS MESES.

Mas uma das grandes polêmicas acerca desse assunto é que esses sobreviventes fizeram de tudo pra se manterem vivos - incluindo comer carne humana dos companheiros que já haviam falecido.

Como o guia (e organizador e criador) do museu diz logo no início do tour: a mídia e a sociedade julgaram os sobreviventes, mas quem somos nós para julgá-los? Não estávamos lá. As buscas foram canceladas 8 dias após o acidente pela dificuldade de encontrar o avião naquela região (avião branco na neve branca, complicado). Eles foram abandonados lá, então não cabe a nós dizer nada a respeito. Aqui tô meio que parafraseando o cara. Ele ainda disse que o foco do museu não é esse, é sobre a garra e meios que essas pessoas encontraram pra sobreviver naquelas condições.


Os sobreviventes estavam esperançosos após o avião ter caído - conseguiram se abrigar dentro do próprio avião e usaram o forro dos bancos pra fazer roupas "apropriadas" para o frio dos Andes. No entanto, após ouvir no rádio que as buscas haviam sido canceladas, tiveram que criar outros meios de buscarem uma saída. Foram várias tentativas de chegar ao vale (que eles acreditavam estar perto) e criações como um óculos de sol pra proteger os olhos (um dos sobreviventes ficou permanentemente cego, outro conseguiu recuperar a visão com cirurgias), forro para sapatos pra conseguir se locomoverem na neve, artifícios para derreter a neve e fazer água...




O guia foi contando toda a história, detalhe por detalhe, por mais de uma hora. Falou muuuuito.

Há placas e muitas fotos. Nas placas dá pra acompanhar o que aconteceu com as pessoas do vôo todos os dias em que ficaram nos Andes - é agoniante pensar no que eles passaram!

A decisão de se alimentar dos outros sobreviventes que tiveram o corpo preservado pela neve é comentada numa das cartas que um sobrevivente escreveu à namorada:


Numa das tentativas de encontrar o vale e buscar ajuda, três sobreviventes perceberam que estavam indo na direção errada. Eles tinham subido a montanha e ao chegar lá em cima se depararam com mais neve e montanhas. Ficaram desesperados e não tiveram coragem de voltar e contar aos outros 13 que haviam falhado. Sendo assim, mandaram um deles de volta - que voltou escorrendo numa prancha improvisada ao local de "abrigo". Ele levou 45 min pra descer uma montanha que levaram 3 dias pra subir - pra você ver o nível de cansaço e fraqueza que eles estavam.

Os outros dois decidiram então partir numa última tentativa para o outro lado. Após 10 dias andando perceberam que a neve estava se dissipando e que deveriam estar perto do vale. Ouviram o som do rio e viram um homem do outro lado. Só que o homem não conseguia os ouvir por causa do barulho do rio! O homem voltou no dia seguinte e jogou pra eles, além de pedaços de pão, um papel e caneta onde eles conseguiram escrever uma mensagem explicando que eram sobreviventes do vôo e que precisavam de ajuda. O homem cavalgou por horas e pegou carona num caminhão por mais algumas horas até chegar no posto policial mais próximo pra buscar ajuda. No dia seguinte equipes de resgate chegaram até o local e resgataram algumas pessoas, mas por causa das más condições climáticas, tiveram que voltar no dia seguinte para buscar os outros 8. A sobrevivência deles foi considerada uma espécie de milagre, misturada com choque por parte das pessoas pelos atos de antropofagia.



Cara, é uma história absurda, incrível. Fiquei totalmente sem palavras, sabe?

Existem livros sobre o acidente, além de documentários e um filme também. Vi o filme esse final-de-semana, chama-se "Alive" e um dos atores principais é o Etahn Hawke. O filme é meio fraquinho e parece até absurdo - você vê as situações pelas quais eles passaram e pensa: "mas que absurdo!" quando se dá conta de que sim, tudo aquilo ACONTECEU.



Enfim, depois do tour ainda ficamos de papo com o guia, que disse que o museu ainda é muito novo e que por isso a entrada é meio cara, eles ainda não tem público suficiente pra bancar tudo. Além disso, ele organizou, no andar de baixo, uma exposição de quadros pintados pelos sobreviventes. O cara é muito gente fina e simpático!

Pra quem se interessa por esse tipo de história, tem o livro "Sociedade da Neve". Pra quem ficou curioso agora (como eu fiquei quando a Jami me contou da história), vale a pena ler o artigo da wikipédia também.

Uma história foda, incrível. Nunca esquecerei esse museu e essa manhã em Montevidéu!
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