Hace un año

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Pai, hoje faz um ano que você se foi. Parece até mentira, porque pra mim a ficha ainda não caiu - será que algum dia vai cair? O meu "adeus" foi dado quando nos vimos pela última vez na minha despedida antes de vir pra Irlanda, e não no dia 18 de dezembro de 2013.

Quando fiquei sabendo que você estava a caminho do hospital, achei que seria mais um daqueles episódios, mas não. Você se foi de verdade, de maneira rápida e inesperada.

Mas eu não quero lembrar de como tudo isso se deu. Quero lembrar das coisas boas que você me ensinou, dos momentos bacanas que dividimos - não à toa o título desse texto está em espanhol - você era super orgulhoso de suas origens e vivia prometendo que eu e o Cé um dia falaríamos espanhol, lembra? Não consigo dizer quantas e quantas vezes ouvimos aquele seu cd Raíces de América - Seleção de Ouro (que hoje tenho em mp3 e às vezes ouço no celular): yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar....

Lembro de quando você nos acordava aos sábados de manhã ouvindo "o seu rock": Legião Urbana, Red Hot, Queen e é claro, o Pink Floyd. Ahhhh, aquele VHS do show Pulse deve ter gasto de tanto que você o assistiu!

Ahhh, e quando você escrevia poemas e livros pra mim e pro Cé? Nunca me esqueço quando a minha professora da primeira série te convidou pra ir conversar com a minha turma acerca do seu poema sobre a primavera - você me deu um beijo no rosto e eu queimei de tanta vergonha. Mas hoje eu sei que não era vergonha - era orgulho de ter um pai escritor que até mesmo a professora chamava pra se apresentar. Os seus livros estão muito bem guardados e um dia eu e o Cé vamos publicá-los - eles são bom demais pra ficarem guardados.

Você queria tanto que a gente estudasse inglês e se enchia de orgulho de ir nos buscar na Cultura às segundas e quartas. Lembro da insegurança que eu sentia ao ver meus colegas indo embora em seus carrões dirigidos por seus motoristas enquanto meu pai vinha num simples corsa branco (comprado num consórcio - saiu no segundo mês graças ao número escolhido pelo meu irmão!). O que eu jamais imaginei na época é que um dia eu estaria saindo da Cultura Inglesa como professora, dando aula para os tais que iam embora em seus carrões com motoristas.

Você foi um exemplo em minha vida - para o bem e para o mal. Muito da minha personalidade e gostos foram moldados de acordo com os seus gostos e preferências e devo muito a você. Nas poucas vezes que nos falamos por telefone quando eu já estava aqui, você se enchia de orgulho e ficava me perguntando se os irlandeses eram esses caras legais mesmo e se todos eram ruivos. Eu sabia que você havia realizado um sonho através de mim: estou aqui, pai, na terra do seu amado U2! Como eu queria te contar mais das coisas que vi aqui, das viagens que fiz, de tudo que conheci!

Naquele 18 de dezembro de 2013 você seguiu o seu caminho e espero que esteja em paz - você precisava. O cartão-postal que te escrevi no dia anterior, de Viena, não chegou a ser postado. Guardo ele aqui, junto com as minhas boas memórias vividas ao seu lado. As ruins também existem, você sabe, né? Você sabe bem. Agora não adianta trazê-las à tona, porque você partiu. Mas fique tranquilo, pai. Vou continuar honrando os seus rocks e usar sempre o meu melhor espanhol!


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