A minha área - no Brasil e na Irlanda

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Antes de começar o mestrado em TESOL na UCD eu já tinha uma ideia de como era o mercado de trabalho pra professores de inglês aqui na Irlanda: não muito animador.

Mas ser professora de inglês era assim tão bom no Brasil?


Aliás, nem no Brasil é muito animador, mas se você tem boas qualificações e experiência e trabalha numa escola séria, dá pra ter bons empregos. Eu já trabalhei em escolas pequenas, médias e grandes e cheguei a ter um bom salário em algumas delas. Na Fisk, por exemplo, eu não ganhava tão bem por hora, mas tinha alguns adicionais, férias pagas, convênio médico e odontológico, vale-alimentação, vale-transporte, enfim, todas aquelas coisas que qualquer emprego registrado em carteira oferece - e que MUITAS ESCOLAS de inglês não oferecem. A realidade em muitas escolas, na verdade, é que você tem um contrato e ganha as horas trabalhadas. Só. Com sorte eles incluem também o vale-transporte, mas só. Se você não trabalha nos meses de férias, não recebe nada, o que é uma droga, porque você tem que guardar uma boa grana durante o ano pra não passar aperto nos meses de férias.

Mas voltando: na Fisk, além desses benefícios, nós tínhamos avaliação profissional contínua, além de cursos e workshops toda sexta-feira (já que às sextas não dávamos aula). Esses cursos às sextas não eram pagos, mas eu não achava de todo ruim porque aprendi muito e os coordenadores das unidades que davam cursos eram sempre excelentes. O coordenador que eu tive por lá era maravilhoso, tinha um inglês impecável, era super organizado e profissional. Foi muito bom trabalhar por lá, mas eu queria mais e foi aí que entrou a Cultura.

Eu imaginava que, pelo prestígio da Cultura Inglesa, eles pagavam rios de dinheiro, mas well, não é bem assim. A hora-aula inicial não é muito mais alta que outras escolas não, mas a diferença é que o professor recebe diferentes adicionais dependendo do horário em que ele trabalha (após às 18h, após às 20h, sábados, etc). Fora isso eu tinha previdência privada, 13º e 14º salário (que era um bônus que podia variar), vale-transporte e refeição, etc, etc. Se você é um professor com experiência de casa e muitas turmas, consegue ter um bom salário. Ah, e se você tem muita, muita paciência pra lidar com cobrança intensa, observações de aula, treinamentos com o departamento acadêmico, vai em frente, boa sorte, coragem. Foi uma experiência muito enriquecedora e maravilhosa (e a realização de um sonho pessoal poder trabalhar na escola dos meus sonhos, a escola onde estudei), mas nada fácil.

Então como eu disse, no Brasil o mercado pode ser ok pra quem tem experiência e qualificações. Já na Irlanda...

Como é o mercado para professores na Irlanda?


Bem, eu sempre imaginei que o mercado fosse meio ingrato por aqui a começar pela escola onde eu estudei. Os professores eram péssimos, claramente não tinham ideia do que estavam fazendo e a escola era muito barata, o que me fazia desconfiar que esses professores não eram bem pagos.

No verão desse ano eu trabalhei pra uma escola de inglês aqui, mas uma escola com um perfil diferente: o foco deles não é em alunos que vem pra cá com visto, e sim alunos europeus, especialmente no período das férias de verão. Eles pagavam um pouco que mais o dobro do salário mínimo por hora e ofereciam uns adicionais por preparação de aula e tudo mais, o que era muito bom!

Na mesma época eu fiz uma entrevista numa escola super conhecida entre os brasileiros aqui (nem cheguei a contar aqui no blog porque não deu em nada!) e fiquei de cara com o que eles pagam por lá. Tipo assim, só vamos dizer que a maioria das childminders que trabalha por hora ganha um pouco mais que o salário mínimo (em torno de 10 euros por hora) e eles não pagavam muito mais do que isso. Sério. Poxa, se a pessoa tem qualificação, experiência, talento, não faz sentido ganhar tão pouco!

No fim das contas a diretora da escola me adorou mas por questões ~legais~ não poderia me contratar. É que o órgão que regula essas escolas que oferecem aulas + férias pra alunos não-europeus é o ACELS, e de acordo com o ACELS, todos os professores precisam ter uma certa qualificação pra poder trabalhar aqui. Nem preciso dizer que eu tenho o equivalente à essa tal qualificação, mas como nem todos os componentes são a mesma coisa, não posso obter um certificado de equivalência - por enquanto, por enquanto...

Agora que conheço algumas pessoas que trabalham na área - afinal de contas, todo mundo no meu curso é professor de inglês e alguns estão trabalhando em escolas por aqui - pude notar que os salários baixos, falta de pagamento por horas de planejamento, entre outras coisas, é prática comum por aqui. Não há um interesse de profissionalizar-se a área, no sentido de colocar o professor de inglês no mesmo patamar de um professor do ensino regular (que como você pode imaginar, tem horas fixas durante a semana, recebe no período de férias, tem vários benefícios, etc e tal). Isso me intriga bastante, especialmente porque a Irlanda é um país muito procurado para o intercâmbio (e não só por brasileiros: uma rápida pesquisa no google mostra que a Irlanda é mundialmente, uma das queridinhas mesmo) e que faz milhões (ou bilhões?) de euros anualmente com a entrada de estudantes. Se é um setor que injeta tanto dinheiro na economia do país, por que não profissionalizar a coisa, investir em professores?

Preconceito e outras barreiras....


Muitas escolas tem professores de diferentes nacionalidades, o que acho um grande avanço - inclusive essa escola famosa onde fiz entrevista tem professores mexicanos, ucranianos, espanhóis e até uma brasileira. Isso mostra que as escolas estão finalmente quebrando com os tabus de que só gringo é bom professor (aliás, você já leu meu post sobre o assunto?). É importante lembrar (principalmente se você é um brasileiro que pensa em estudar fora, seja aqui ou em outro país de língua inglesa) que se você acabar tendo um professor que não é nativo que isso não é desvantagem nenhuma. Sei que muitos alunos tem essa coisa de "se eu quisesse ter um professor brasileiro, ficava no Brasil", mas acredite meu amigo, se esse seu professor brasileiro conseguiu seu lugar ao sol num país de língua inglesa, ele deve ser muito bom, e até mesmo melhor do que o local, que não precisa mostrar o seu valor o tempo todo. Aliás, sempre pergunto aos meus amigos que estudam aqui se seus professores são bons (geralmente irlandeses, americanos, britânicos) e a resposta é sempre negativa. Não estou dizendo que todo professor nativo em inglês é ruim, mas se o não-nativo está inserido no mercado, é porque ele ralou muito e deve ser no mínimo, bem bom. Dê uma chance. Não tenha preconceito. Você pode se surpreender.



O mercado de trabalho que me espera não vai me fazer rica nem nunca poderei sustentar uma família sozinha com um salário de professora de inglês aqui. No entanto, o dinheiro é o que menos me preocupa - lidar com uma instabilidade no setor, falta de investimento e preconceito (de escolas e principalmente alunos) é o que mais me amedronta. Veremos como as coisas se encaixarão no ano que vem....

Outras fontes


Tem muita pesquisa e literatura na área de Ensino de Inglês que aborda o assunto professor nativo/não-nativo. Pra quem tem interesse no assunto, indico alguns textos (em inglês) super interessantes:

Native-English speakers: always the right choice? publicado pelo British Council

Why I wish I was a Non-Native English speaker publicado pelo TEFL Equity Advocates
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