O dia em que recusei uma promoção no trabalho

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Só hoje vim perceber que não escrevo - e nem posto - nada no blog há mais de uma semana. Não abandonei esse espaço - ainda é um prazer, um refúgio, um passatempo delicioso dividir minhas experiências e vida por aqui, mas não está fácil. Tenho trabalhado muito, muitas horas por dia, e tenho feito coisas além trabalho quase todo dia da semana. Isso somado à cuidar da vida doméstica, encontrar amigos, falar com família e amigos o Brasil, pronto, acabou o tempo livre, mesmo!

Mas eu queria vir contar sobre uma coisa que aconteceu comigo nesse mês de agosto que mexeu muito comigo.

Todo mundo que me acompanha aqui sabe quem sou, da minha trajetória: sou professora de inglês desde os 17 anos de idade, amo o que faço, mas tive meus momentos de estresse. Justamente pra ter uma pausa vim pra Irlanda passar uma temporada - cof cof - que acabou virando uma mudança ~permanente~ mesmo. Mas o fato é que quando me vi construindo uma nova vida aqui, não pensei que poderia fazer outra coisa a não ser ensinar. É isso o que sei fazer, o que amo fazer e o que tenho qualificação pra fazer.



Concluí meu mestrado em Ensino de Língua Inglesa para Falantes de Outras Línguas no ano passado e logo após obter minhas notas e diploma, comecei a mandar currículos. Tinha minhas dúvidas em relação à conseguir um emprego como professora, mas não demorou muito e consegui. Comecei part-time numa escola e uns meses depois consegui um outro emprego part-time em outra escola pra poder dar uma melhorada no salário.

Essa rotina de duas escolas me cansou depois de alguns meses e comecei a procurar outra coisa - queria ficar numa escola só! De novo, não demorou muito e consegui um emprego na escola onde trabalho atualmente - estou lá desde maio desse ano.

Quando fiz a entrevista minha chefe já tinha comentado da possibilidade deu trabalhar como Principal num dos summer centres que eles tem, o que se concretizou. Trabalhei como coordenadora dessa escola por 7 semanas, uma experiência enriquecedora porém estressante, difícil, cansativa e frustrante.

Mas as 7 semanas acabaram e voltei a dar aula na escola em Dublin 2. No entanto, ao voltar, minha chefe me chamou pra uma conversa - disse que estavam muito feliz com o trabalho que eu havia realizado no verão e me perguntou se eu tinha interesse numa possível vaga de assistente de coordenação (ADOS - Assistant Director of Studies) na outra unidade da escola que fica em Bray.

E tipo, foi tudo muito, muito rápido.

No meu primeiro dia de volta dando aula, ela me falou dessa oferta. Na terça, confirmou se eu tinha interesse mesmo e disse que no dia seguinte a diretora da escola de Bray e ela me entrevistariam. Na quarta elas me entrevistaram. Na sexta ela já me chamou pra dar a resposta: eu passei. Eles me ofereceram a vaga!




Eu tinha que dar resposta na outra segunda, porque era meio urgente, pra começar a trabalhar num prazo de tipo 10 ou 15 dias. Então passei o fim de semana todo pensando.

Pensei, pensei, pensei.

Pensei e não consegui chegar numa solução. Eu não queria dizer "sim" mas também não queria dizer "não"!

Porque claro, eu tava me achando por ser a única professora não-nativa da escola e estar lá há tão pouco tempo e já ter uma promoção no caminho. Mas queria dizer não porque a vaga não era exatamente o que eu queria agora, e era em Bray.

Bray fica no condado de Wicklow e é longe de onde eu moro (pertinho do centro de Dublin). Eu teria que pedalar uns 15 ou 20 minutos até a estação de trem, pegar o trem por uns 40 ou 50 minutos e andar mais 20 até a escola. Começaria a jornada de trabalho às 8 da manhã todo dia e em eventuais sábados.

A proposta infelizmente não era atraente e o salário não compensava toda essa jornada.

Obviamente ter um cargo desse no currículo seria ótimo, e sim - eu tenho intenção de ir atrás desse tipo de cargo no futuro, mas a conta não tava batendo pra mim.

Foi difícil de decidir mesmo, porque ao mesmo tempo que eu queria a promoção que corresponde à minha experiência e qualificação, não queria passar mais de 3 horas do meu dia indo pro trabalho pra ganhar um pouco mais do que ganho no momento gastando 30 minutos do meu dia no total indo e voltando do trabalho.

Mas chegou domingo à noite, e depois de muito conversar com o R., estudar a situação, fazer lista de prós e contras, chorar, decidi que não seria a melhor coisa pra mim no momento.

Na segunda falei com minha chefe, recusei a oferta, agradeci a oportunidade e disse que esperava ainda ser bem vinda na escola pra dar aulas. Ela, como sempre, foi uma fofa, disse que certamente, e a vida seguiu.

No momento tenho o horário da tarde ocupado com duas turmas, mas tenho cobrido professores que estão de férias no período da manhã, então estou dando 35 horas de aula por semana, o que é muita coisa, especialmente quando você percebe que eu não tenho horário de almoço e ainda gasto no mínimo uma hora por dia (ou mais) em casa preparando aula. Mas eu tô feliz, acho que tomei a decisão certa. Aceitar um emprego só pelo status que ele traria ao meu currículo não me deixaria feliz no fim das contas. Agora é continuar trabalhando e focar nos próximos anos e passos da minha vida profissional nesse país!
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