Namorar um estrangeiro [2ª edição]

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(amanhã é o dia do sorteio, hein?! já tá participando?!)

Em julho de 2014 eu publiquei um post sobre namorar um estrangeiro. Foi uma coisa que eu sempre quis escrever a respeito mas esperei pois queria preservar minha relação com o R. (irlandês), sabe? Principalmente porque ele não é fã de redes sociais nem gosta de exposição na internet.

Eis que há umas semanas recebo um email de leitora muuuito fofa, a S. Ela dizia que nunca tinha comentado no blog porque era tímida, mas que me lia há muito tempo e que tinha muita curiosidade em saber mais sobre essa coisa de namorar alguém de nacionalidade diferente, além, é claro, de ter um relacionamento em outra língua.



Desde aquele post que fiz ano passado pra cá, minha percepção não mudou: ainda penso no R. como pessoa, não como irlandês. Não temos conflitos em termos de diferenças culturais porque eu sou super aberta pra cultura irlandesa e ele pra brasileira. Cozinhamos batatas e legumes com carne por minha causa e faço arroz, feijão e carne por causa dele. Fico na fissura de comer sobremesas irlandesas e ele doido pra comer brigadeiro.

Esse interesse mútuo pela cultura um do outro é uma das coisas que faz muita diferença num relacionamento.


Mas e a língua? 

Além disso, um fator importantíssimo é a questão da língua - será que a gente se torna uma pessoa diferente ao falar outra língua? Eu já li (e linkei aqui no blog) vários textos que falam sobre a gente adquirir uma nova alma ao aprender uma nova língua... e eu acho isso simplesmente maravilhoso. De fato, ter o privilégio de falar outra língua é sensacional e os benefícios que isso traz pra nossa vida, incontáveis. Falar mais do que uma língua ativa novas áreas no cérebro e também diferentes processos cognitivos e além de toda essa parafernália neurológica, toda língua vem num contexto cultural que a molda. Ao aprender uma língua, você aprende sobre a cultura das pessoas que falam aquela língua como língua nativa também.

Sendo assim, se a gente aprende sobre outras culturas ao falar outras língua, natural que certos aspectos da nossa personalidade fiquem mais em evidência ou tímidos ao praticá-la; as piadas que você conta em português não são as mesmas que você conta em inglês; as músicas que você canta em italiano não são as mesmas que você canta em alemão; os livros que você lê em russo não são os mesmos que você lê em finlandês. O que eu quero dizer é que falar uma língua te abre pra um universo novo, com comidas, cheiros, costumes, ideias totalmente novas.

Hoje, o meu relacionamento com o R. é um híbrido de português com inglês. Desde o começo ele teve interesse ao aprender algumas palavrinhas e hoje existem frases e palavras no nosso vocabulário diário que só são ditas em português, mesmo ele nunca tendo estudado a língua formalmente. Não vou dizer que o balanço é 50/50, porque ainda temos um bom caminho pra chegar lá, mas uma boa parte das nossas conversas são em português, o que me enche de amor e orgulho. Eu sou fluente em inglês, tenho proficiência na língua, posso ser considerada bilíngue (bilíngue não é somente a criança que cresceu com 2 idiomas no seu contexto familiar não!), mas at the end of the day, não tem coisa mais reconfortante do que falar português, principalmente com quem eu amo!


Onde você está querendo chegar, dona Babs?

Bom, voltando ao email da minha querida leitora S.: como eu não achei que teria nada de novo pra acrescentar à esse assunto, acabei seguindo outra sugestão dela e "entrevistei" algumas amigas que tem relacionamentos com estrangeiros (algumas namoram, outras estão noivas, outras são casadas) de diferentes nacionalidades: irlandeses, italianos, franceses.

Eu perguntei pra elas se elas achavam diferente ter um relacionamento com um brasileiro de um estrangeiro, se a língua era uma barreira, se havia alguma situação engraçada ou ruim que tenha acontecido por causa de diferenças culturais... vamos ver o que elas me disseram?


Brasileiros X europeus

Sobre a diferença entre homens brasileiros e europeus, várias citaram o fato de que o homem europeu não é tão dependente da mãe quanto o homem brasileiro - principalmente por sair de casa mais cedo. Consequentemente, ele não espera que a namorada/esposa faça tudo pra ele como muitos homens no Brasil pensam. "Acho o estrangeiro no geral um pouco mais maduro, no sentido de deixar a casa dos pais mais cedo, vier sozinho/em república e se virar. Acho que eles esperam menos que a mulher faça tudo em casa, o machismo no Brasil ainda é muito intrínseco na nossa geração, super presente, ainda que de forma relativamente escondida", disse A.

Minha amiga D. também pensa o mesmo: "O homem brasileiro tende a ser um homem mais dependente se não da mãe ainda na idade adulta da namorada ou esposa, o europeu por sair da casa dos pais cedo acaba se tornando mais independente;  em outras palavras é um homem que sabe se virar".

Ainda nesse assunto, D. menciona outro ponto importante: "O homem brasileiro em geral é um homem ciumento e possessivo e vê isso como uma forma de demonstrar o amor. O homem europeu por exemplo é mais seguro de si e consequentemente confia na parceira, não perde tempo com desconfianças e deixa a parceira livre bem a vontade. Não é saudável se sentir propriedade de ninguém".


Diferenças culturais

Em relação à diferenças culturais, as respostas foram bem variadas. Minha amiga L. disse: "Em termos de diferenças culturais: acho que a comida é o que mais pesa. Ele não gosta de muitas coisas diferentes e eu adoro comida brasileira, bem temperada. Mas, aí cada um faz o seu quando quer comer algo diferente. E a gente tenta chegar a um acordo quando vai sair pra comer em algum restaurante". 

D. complementa: "Quando o assunto são as diferenças culturais é preciso muita paciência e procurar entender melhor alguns pontos de vista. O universo homem e mulher por si só já são bastante diferentes e quando os envolvidos tem culturas diferentes essas diferenças se acentuam. Por exemplo, o brasileiro é mais emotivo e sensível em alguns aspectos, já o europeu tende a ser mais racional e não se deixa comover facilmente".

Pessoalmente acho que no fim, a gente tem que levar as diferenças numa boa e a A. parece concordar comigo: "A gente dá bastante risada com as diferenças culturais, tenho que dizer. Acho que nos adaptamos um ao outro e nos respeitamos. Não me dou mais muito conta disso, acho... Quero ver quando vierem os filhos, acho que ai pode pegar mais!".


Relacionamento e língua

Sobre o fato da língua ser uma barreira no relacionamento ou não... Olha só o que a G. falou: "Muitas vezes os costumes e até mesmo as formas de expressões na linguagem afetam o dia a dia, mas nada que uma conversa não resolva tudo no final... No começo acredito que é necessário expor os sentimentos e as diferenças para se entrar em comum acordo, mas quando se tem algum desentendimento é muito mais fácil lidar com alguém da sua própria nacionalidade pois podemos nos comunicar melhor. Mas quanto à comunicação em outra língua não vejo isso como um problema, mas sim como uma oportunidade de aprendizado - fora que me sinto muito internacional!!!"

Já a L. pensa o seguinte: "Olha, eu vou te falar que a língua é uma barreira, sim. Mesmo quando há fluência em ambas as partes. Acho que a entonação muda quando falamos outra língua e os irlandeses também tem um jeito diferente de falar. Mesmo dominando o inglês, às vezes não consigo interpretar a situação e aí pode haver uma discordância! rsrs".

A D. parece ter uma opinião parecida: "É um desafio expressar sentimentos ou opiniões num idioma que não é o seu, por mais esforço que você faca nunca sera a mesma coisa. No meu caso ambos usamos língua estrangeira para nos comunicarmos então o misunderstood (SIC) faz parte do cotidiano, mas depois dos esclarecimentos às vezes tem até umas gargalhadas que torna essas situações até engraçadas no final".

A A., que é casada com um italiano, sobre o mesmo assunto: "Talvez no início, quando o português do M. ainda era beeeem básico, e o meu italiano também, o mais difícil foi socializar com as famílias e amigos, tendo que traduzir tudo. Mas esse problema foi superado. Fora isso acho tranquilo. Acho que os problemas são os mesmos de qualquer casal: quem vai limpar o banheiro, quem vai cozinhar, onde a gente vai de férias... Falar em italiano com ele acho tranquilo. O M. tem muita paciência se eu falo algo errado, me ajuda... Acho ruim se eu tô nervosa e não me vem uma palavra, ou não consigo expressar exatamente o que  estou sentindo... Ai caio para o português. Essa é a grande vantagem dele falar também português! Acho que eu enlouqueceria de não conseguisse me expressar!" - me identifiquei muito com essa última parte!


Tudo isso me leva a crer que maior que nacionalidades ou backgrounds é a personalidade e flexibilidade de cada um, e a boa vontade de querer fazer o relacionamento dar certo. E querer fazer um relacionamento dar certo não é exclusividade nenhuma de casais de nacionalidades diversas, né?
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