Nomes, apelidos e sobrenomes irlandeses

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Eu sei que provavelmente você já se deparou com algum post ou vídeo no youtube que falava sobre os nomes irlandeses, eu sei. Mas é que esses dias a Vânia, do Diário de uma Teimosa, postou um lance no facebook que me fez ficar pensando sobre os sobrenomes na Irlanda e bem... resolvi juntar tudo numa coisa só e falar de nomes de maneira geral, uma coisa que nunca fiz aqui no Barbaridades!

Ahhhh, o que dizer dos nomes irlandeses?

Lembro muito bem do desespero dos meus primeiros dias aqui tentando adivinhar a pronúncia de nomes, principalmente quando eu ia ligar pra alguém a respeito de alguma casa. Eu googlava tudo! Felizmente, para a minha nossa felicidade, existem sites como o forvo que tem pronúncia de tudo quanto é coisa e ó, me salvou bem.

Primeiro nome na Irlanda


Apesar da maioria dos irlandeses não serem ligados à língua e cultura irlandesa fortemente, muitos acabam dando nomes tipicamente irlandeses pros seus filhos. Nomes como Cian, Seán, Siobhvan e Sinéad são super comuns, por exemplo. Esses são até bem populares, então a pronúncia deles é bem difundida, mas caso você não saiba, clique nos nomes pra ver como eles são ditos! :)

Quando você entra numa loja de cartões (já falei aqui diversas vezes o quanto os irlandeses amam mandar cartão pra tudo!) é comum ter uma prateleira com cartões de aniversário (principalmente infantis) que já vem com o nome da criança na frente. É um show de AoifePádraig, Óisín, Ciarán, Caoimhe, Deirdre, Gráinne, Niamh, Saoirse, Darragh...




Fonte: Irish Central

Confesso que alguns deles soam esquisitos demais aos meus ouvidos, mas outros são lindos demais! Muitos desses nomes, vale lembrar, ganham outras formas escritas (muitas vezes a versão do nome em inglês mesmo) e tem variações, como Ciara, que pode virar Keera, Keira ou Kira.

Na verdade, essa coisa de "traduzir" os nomes do gaélico pro inglês tem origem lááááá atrás. Quando os ingleses tinham domínio sobre o país, o uso de irlandês era proibido, então muitos nomes deixaram de ser usados. Além disso, a Igreja Católica tinha um papel importante na questão dos nomes, já que não batizava crianças que não tinham um nome de algum santo - e no caso das meninas, tinha que ser alguma versão de Maria (Mary).

Então tinha a Mary (em irlandês Máire), a Maureen, Maura, Molly... ou então faziam um nome duplo, como Mary-Kate ou Mary-Pat.

No caso dos meninos, era sempre John (Seán em irlandês). Toda família tinha uma Mary e um John, mas também James (Seamus), Patrick (Pádraig), Michael (Mícheál), Margaret (Máiréad) Brigid (Bríd) e Anne (Ainé). O que muita gente fazia, no entanto, era nomear seus filhos com versões inglesas dos nomes mas no dia-a-dia, chamar os filhos pelo nome irlandês mesmo.

Irlandês era a língua do povo, enquanto inglês a língua da lei e das letras e latim, da igreja. Os nomes vinham de todas essas línguas e confusão na hora de traduzi-los era comum. Alguns nomes em inglês eram associados com nomes irlandeses já existentes, muito embora eles não significassem a mesma coisa. Outros foram traduzidos do irlandês pro latim e vice-versa. Inclusive encontrei uma página que menciona um artigo onde exemplificam um pouco dessa confusão de nomes:

Seán bears the same relationship to John. No Gospel was ever written by a Naomh Seán – the Latin Joannes becomes Eoghan. Now, put Eoghan, or Owen, back into Latin and you get Eugenius, which comes back into English as Eugene.

Desde a formação da Conradh Na Gealige (The Gealic League - uma organização dedicada à preservação e renascimento da língua irlandesa) em 1893, muitos nomes que estavam perdidos foram sendo recuperados e se tornando populares. Alguns nomes ganharam popularidade por conta de uma associação com algum evento ou pessoa famosa na Irlanda.

No ano passado, os nomes de meninos mais comuns foram Jack, James, Daniel, Conor e Sean, sendo que esses cinco nomes estão no Top 5 desde 2007. Aliás, com exceção de Daniel, os outros quatro são os cinco mais populares desde 1998!!!!

Já do lado das meninas, há uma variedade maior de nomes. No entanto, os mais comuns no ano passado foram Emily, Sophie, Emma, Grace e Ava.

Uma pesquisa mostrou que quando os dois pais são irlandeses, Jack é o nome de menino mais comum. Quando os pais são do Reino Unido, os mais comuns são Charlie, Daniel e Finn. Quando os pais são da EU15*, o nome mais comum é Liam. Quando os pais são do restante de Europa, os nomes mais populares são David e Jakub. Já quando os pais são de outras nações fora da Europa, Muhammed foi o nome mais registrado na Irlanda em 2014.

Quando os pais são irlandeses ou ingleses, Emily é o nome de menina mais comum. Com pais da EU15* (com exceção da Irlanda e Reino Unido), o queridinho é Emma. Quando os pais são de outros países da Europa, o nome mais popular é Julia, e Sarah quando os pais são de fora da Europa.

*EU15: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Portugal, Reino Unido e Suécia.

Sobrenomes na Irlanda


Antigamente, beeeem antigamente, a população da Irlanda era muito menor e portanto, sobrenomes não eram comuns. Se só tivesse um Niall, um Eoin na região, não era um grande problema, sabe? A partir do século 11 mais ou menos a população já era maior e o sistema de um nome só não era mais suficiente. Foi aí que os prefixos Mac (ou Mc) e Ó surgiram. Mac significa "filho de" enquanto Ó, "neto de".

Há também um outro prefixo, Fitz, que também significa "filho de", mas esse só apareceu depois da invasão dos Normandos aqui - daí o surgimento de nomes como FitzGerald ou FitzPatrick. Os Normandos adquiriram o modo de vida gaélico e eram considerados "more Irish than the Irish themselves", então esses nomes Hiberno-Normando são considerados irlandeses mesmo.

Fonte: Irish Central

Mas voltando um pouco no tempo: os clãs gaélicos eventualmente se subdividiram em outros grupos. Cada grupo era liderado por um membro original do clã e dominava uma parte do país, então por isso que vários sobrenomes podem ser encontrados em diversas partes da Irlanda. Esse sistema foi propagado pelos invasores Normandos, mas não resistiu à invasão e colonização inglesa no século 17, quando ter um sobrenome que soasse irlandês não era vantagem.

Assim como acontecia com os primeiros nomes, existiam leis que subjugavam o estilo de vida gaélico. Muitos nomes AND sobrenomes foram traduzidos pro inglês, mas nessa história vários acabaram sendo mal traduzidos, ganharam letras, tiveram letras tiradas, etc. Por exemplo, o sobrenome McEanemy virou McAneny ou Bird (a palavra 'pássaro' em irlandês é 'éan').

Com a criação do Conradh Na Gealige como comentei há uns parágrafos acima, muitas famílias reassumiram seus nomes irlandeses com todos os Mac, Mc ou Ó que tinham direito. No entanto, alguns nomes foram perpetuados em sua forma não-irlandesa tanto quanto a irlandesa, como o sobrenome Kelly, que também pode ser O'Kelly ou Murphy, que pode ser O'Murphy.

Curiosamente, até hoje alguns desses nomes são super populares. Em 2014, os sobrenomes registrados mais comuns foram Murphy, Kelly, Byrne, Ryan e O'Brien.

Fonte: ESRI

De acordo com o Citizens Information, a criança nascida e registrada aqui deve ser o sobrenome do pai OU da mãe OU dois dois (o famoso double-barelled surname). Se você quer que seu filho tenha um outro sobrenome, deve mandar um formulário preenchido para o Registrar General ou o Superintendent Registrar. Se os pais não forem casados, o nome do pai só vai no registro se ele concordar.

Mais sobre o assunto aqui.

Como funciona esse tal de double-barrelled surname?


Basicamente, é quando os dois sobrenomes são usados como um só, apenas separados por um hífen.

Essa prática é inglesa e vem da nobreza - era uma forma de mostrar a sua herança familiar  e preservar o nome na possibilidade dos homens da família não terem descendentes que carregassem o nome para a posteridade.

No entanto, aparentemente nos últimos anos, principalmente depois da época do Celtic Tiger, os double-barrelled names se tornaram cada vez mais populares, já que as mulheres pararam de trocar seu sobrenome pelo do marido e portanto, gostariam que seus filhos tivessem o seus nomes também.

Fonte: Rock my Wedding

Só que muita gente aqui na Irlanda tem a opinião de que os double-barrelled names são pretensiosos e inúteis, já que no fim das contas, quando as pessoas que tem um nome duplo assim tiverem filhos, provavelmente terão que escolher um nome só pra passar pra próxima geração.

Nome do meio na Irlanda


Não é fato, mas de acordo com minhas pesquisas, não era prática comum o uso de nomes do meio na Irlanda. Entretanto, muitos pesquisadores acreditam que o uso do nome do meio, principalmente nos 1800 era relacionado à classe social e nível econômico. Quanto mais rica a família, maior a chance deles usarem um nome do meio. Outra possibilidade é a de que os nomes do meio eram dados pra diferenciar membros da família que continham o mesmo nome.

Também acredita-se que, pelo fato das cidades terem crescido muito, o uso de mais um nome servia pra diferenciar as pessoas no meio social. A tradição de usar os nomes dos avós como forma de homenagem ou usar o nome de algum santo era muito forte, principalmente por conta do domínio da Igreja Católica por aqui. Muitos pesquisadores dizem que padres exigiam que a criança tivesse um nome do meio que fosse de algum santo - caso não tivesse, eles simplesmente se recusavam a batizá-la. Existem histórias desse tipo de prática que datam dos anos 50 e 60!

Mesmo após o século 20, muitas pessoas ainda escolhiam nomes de santos, porém um pouco mais diferentes, como Gerard, Marian e Carmel.

Fonte: The Catholic Gift Store


Outra possibilidade é a de que a criança ganharia um nome do meio quando fizesse a sua crisma (geralmente um nome homenageando um ancentral irlandês). Masssss até hoje essa prática é comum. Quer dizer, a criança escolhe um confirmation name para si, geralmente baseado num santo que ela admire e tal. Não é uma obrigação ter um nome de crisma diferente do seu nome de batismo, mas para "inspirational purposes", a Igreja recomenda que a pessoa escolha um nome de santo. Esse nome obviamente não é usado oficialmente.

Atualmente, a tendência é que as pessoas façam uma homenagem à algum avô ao atribuir seu primeiro nome como middle name aqui. Vale lembrar que raramente o nome do meio é usado em documentos e tal - na maioria das vezes, é só o primeiro e último nome.

Apelidos na Irlanda


As crianças aqui eram nomeadas seguindo um padrão: o primeiro filho teria o nome do avô paterno, a primeira filha o nome da vó paterna, os próximos os nomes dos avós maternos, os próximos nomes dos pais e os próximos nomes de algum irmão que morreu, alguém que emigrou, etc.

Como os nomes acabavam sendo repetidos, as pessoas ganhavam apelidos pra que pudessem ser distinguidas. Então o primeiro nome poderia ser modificado com o acréscimo de adjetivos como "mór" (grande) ou "óg" (jovem) - como se fosse um senior e junior, pra distinguir pai e filho. No entanto, ao invés desses adjetivos irem pro fim do nome (como em português, que é sempre Fulano da Silva Filho), eles iram pro meio. Então ficaria algo como Seán Óg Ó Súilleabháin (John O'Sullivan Jr. em inglês). A palavra "beag" (pequeno) também era usada pra separar pai e filho, além de atributos físicos, como cor do cabelo, tipo Pádraig Rua (Patrick de cabelo vermelho) ou Máire Bhán (Mary de cabelo claro) - exemplos retirados da wikipédia.

Aí tem aqueles apelidos comuns mesmo, tipo Pat ou Paddy para Patrick, Mike ou Mick para Michael, Tom para Thomas, Jen para Jennifer, etc. Também dá pra acrescentar o sufixo -ie ou -y após o nome, tipo Katie, Julie ou Joey.

Fonte: Giphy

No entanto, em Dublin rola um lance que eles acrescentam um O no nome pra formar um apelido - às vezes no nome mesmo, às vezes já numa forma mais curta do nome e às vezes no sobrenome. Então Anthony vira Anto, John vira Johno, Declan vira Deco, o sobrenome Fensom vira Fenno, Kean vira Keno, etc, etc, etc.


Recomendo muito, pra quem se interessa pelo assunto, clicar nos links que deixei espalhados pelo post, que me serviram demais como fonte, pois meu conhecimento acerca de alguns tópicos abordados aqui era bem pequeno. Espero que você tenha gostado e aprendido tanto quanto eu!
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