Saigon e mais sobre a história do Vietnã

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Nuns posts atrás eu falei sobre como foi surreal ver o corpo embalsamado do Ho Chi Minh e de como o líder vietnamita é querido e respeitado no país. Quando chegamos na cidade que leva seu nome, pudemos entender um pouco mais do porquê e como esse cara se tornou esse ícone.

Primeiro que o Ho Chi Minh tem essa coisa de deus/imortal porque desde os anos 50 o regime Comunista sempre o glorificou e usou a propaganda pra elevá-lo a esse status. Dizem que ele era celibato, e publicações que dizem o contrário são banidas no Vietnã, justamente pra preservar essa imagem de pai da nação, pai da revolução, um homem celibato pela revolução, etc. 

Fomos num museu com uma exposição interessantíssima e toda poética sobre a vida dele como líder, várias frases ditas por ele, países por onde ele passou, etc. Eu, que não sabia quase nada sobre ele, fiquei bem satisfeita por ter aprendido tanto nos poucos dias em que estivemos por lá. Sem dúvida um dos pontos altos dessa viagem!






Também visitamos o correio central. E você deve estar se perguntando: por quê?! Bem, o correio central da antiga Saigon foi desenhado por ninguém mais ninguém menos que Gustav Eiffel, aquele mesmo! O prédio é bem europeu e até destoa do resto da cidade, mas ali na área pudemos ver alguns pôsteres com propaganda comunista e aproveitamos pra registrar.







Agora, um outro ponto altíssimo dessa viagem foi conhecer o War Remnants Museum. Nada do que eu tentar dizer nesse post chegara aos pés do que foi estar naquele lugar. Esse museu é um dos mais populares do país e recebe meio milhão de visitantes por ano, sendo que 2/3 disso são estrangeiros. 

E antes de continuar, temos que fazer um adendo de que sim, o museu é heavily biased, ou seja, glorifica a vitória do Vietnã sim, fala mal dos americanos sim. Mas o que as pessoas esperam? Num museu americano você não vai ver ninguém apontando dedos pra americanos, vai? Entendo essa puxação de sardinha vietnamita e respeito muito. Se a pessoa tiver um senso crítico, vai saber juntar os pontos e entender o contexto geral.

O museu é bem grande e tem muita informação - do lado de fora há diversos equipamentos de guerra expostos, como armas, tanques, aviões. Dentro há diversas salas que incluem muitas fotografias bem gráficas, informações sobre o agente laranja, informações sobre os fotógrafos que trabalhavam e se arriscaram nessa guerra, as consequências para o país, soldados americanos que abandonaram o exército dos EUA, etc., etc. 








O conflito na região durou em torno de 20 anos, de 1955 a 1975 e oficialmente a briga foi entre o Vietnã Norte e o Vietnã Sul. O norte era apoiado pela URSS e China, e o Sul pelos Estados Unidos, Coreia do Sul, Austrália, e outros países anticomunistas. 

Foi uma guerra custosa que dividiu o mundo, principalmente porque na época rolava a Guerra Fria entre EUA e URSS. Mais de 3 milhões de pessoas morreram, sendo que mais da metade foram civis vietnamitas. A guerra acabou quando forças comunistas do Norte ganharam controle do Sul e o país foi unificado sob o nome de República Socialista do Vietnã.

O grande problema dessa guerra é que no auge da paranoia americana, eles pensavam que se um país caísse para o comunismo, muitos outros iriam atrás e isso daria mais poder pra União Soviética. Kennedy e Johnson enviaram milhares, centenas de milhares de soldados pra lutar no Vietnã. O negócio tomou proporções estratosféricas, em 1967 tinha meio milhão de soldados americanos no Vietnã. Só que muitos desses soldados estavam cansados e descrentes de que aquela guerra valia a pena, então muitos caíram fora, fugiram, criaram grupos para incentivar outros soldados a cair fora também - pensa nas consequências que esses caras sofreram, vocês sabem o quão patriotas os americanos são. Foram julgados por todos os lados (você matou inocentes! ou como você foi perder a guerra?!) Muitos não voltaram pros EUA nunca mais, foram buscar abrigo no Canadá, etc.

Muitos outros sofreram danos e traumas irreversíveis e usaram muitas drogas pra lidar com os horrores da guerra.

Quando Nixon subiu à presidência, começou um processo de vietnamização, que era retirar tropas americanas e dar aos vietnamitas do Sul a artilharia necessária pra eles mesmo lutarem.

Nesse tempo aí também teve vários escândalos de soldados americanos que assassinaram centenas de civis desarmados em várias vilas no país. Isso começou a gerar uma onda de protesto anti-guerra muito grande nos EUA, mas a guerra ainda perdurou e só nos anos 70 assinaram contrato de paz.

Só que aí 2 milhões de vietnamitas morreram, 3 milhões machucados e 12 milhões refugiados. A guerra destruiu a infraestrutura e economia do país.

Sem falar no agente laranja, né? Um herbicida superpoderoso usado pelos americanos pra destruir florestas e plantações no Norte do país. Esse herbicida continha dióxido químico, que depois descobriram causar danos como câncer, problemas psicológicos e físicos, más formações no feto... não só nos vietnamitas como também em soldados americanos.

Esse composto dura no solo e na água por muitos anos, e até hoje, em quartas gerações após o fim de guerra, ainda há consequências gravíssimas. O museu tem uma exposição inteira com muitas fotos, e se você não tem estômago forte, não vai conseguir nem entrar na sala. O negócio é pesado, triste, revoltante. Milhões de veteranos de guerra entraram com processos contra as empresas que produziam esses compostos químicos usados na guerra e ganharam muito dinheiro como recompensa. No começo dos anos 2000, um grupo de vietnamitas tentou fazer o mesmo, já que sofreram as consequências igualmente e ainda alegavam que o uso do agente laranja violou leis internacionais. No entanto, nunca ganharam nada.

Eu poderia ficar aqui escrevendo parágrafos e mais parágrafos do que vi, senti e aprendi nesse museu. Chorei, fiquei com raiva, mas me senti privilegiada por ter tido a oportunidade de aprender mais sobre essa guerra tão marcante e sobre esse país tão foda que é o Vietnã.






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